História

Falar em escotismo, em sua crescente expansão ao longo de seus 100 anos de existência, em sua representatividade em 216 países e territórios e seu efetivo mundial superior a 28 milhões de participantes, poderia levar a conclusão de que o cinquentenário de um grupo escoteiro é mero reflexo deste fluxo, que teve início há cem anos, não fossemos nós parte desta história.

Assim como os demais membros do movimento, sabemos que na realidade em que vivemos, a vida de um grupo escoteiro passa pela euforia e determinação dos que iniciam a caminhada, depois oscila entre a glória dos bons momentos de farta chefia qualificada com efetivo de membros juvenis surpreendente, e momentos em que alguns poucos heróis em nome destes bons momentos dedicam corpo e alma pela continuidade do grupo. São chefes de grupo, chefes de seção, dirigentes, membros juvenis, que ao longo da história de um grupo, a qualquer sinal de risco de descontinuidade sentem-se motivados pela força do altruísmo para manter vivo aquilo que vale a pena, aquilo em que acreditam, aquilo que vai ao encontro de seus princípios, aquilo que os faz agentes modificadores capazes de perceber quando somos o diferencial entre a extinção e a continuidade, e optam por continuar. E não basta que somente um o faça, nem que somente um o deseje, pois a continuidade somente é garantida pelo altruísmo conjunto, pois bem sabemos que não foi por falta de heróis que grupos companheiros de jornada ficaram pelo caminho, mas por falta de um conjunto deles. O Grupo Escoteiro do Ar Hercílio Luz já comemorou 50 anos de história, e contar esta história em poucas linhas certamente impossibilitará que sejam citadas todas estas formidáveis pessoas responsáveis pelas conquistas do GEAHL. Hoje fazemos parte deste grupo forte e saudável e somos imensamente gratos pelo legado que foi deixado, pois não ficou apenas um grupo, mas um grupo com alma, com essência. Um grupo que passou de geração a geração os princípios escoteiros, e através da aplicação do método escoteiro foi possível o autodesenvolvimento de cada um de seus integrantes, deixando aflorar com alegria e entusiasmo, em ambiente democrático, o melhor de cada um, fazendo de nossas vidas um eterno ambiente de companheirismo e aventura.

O ano é 1957. No clima festivo em que escoteiros do Brasil e do mundo comemoravam o cinquentenário do Movimento Escoteiro, por iniciativa do Rotary Clube do Brasil, nasce o Grupo Escoteiro Bom Abrigo, no bairro de mesmo nome. O grupo ficou sediado em um galpão emprestado pelo senhor Almir Saturnino de Brito, que ficava atrás de um casarão onde ele guardava ferramentas, e tinha como um dos chefes e membro fundador, Otacílio Schüller Sobrinho, escoteiro de Videira que ministrara no ano anterior palestra sobre Escotismo ao Rotary Clube do Estreito.

O Grupo Escoteiro Bom Abrigo foi formado por jovens da comunidade e por filhos dos próprios Rotarianos. Começou com uma patrulha escoteira da qual participaram, por exemplo, os irmãos Boabaid e os irmãos Rouland, e uma matilha, da qual participaram Esperidião Amin Helou Filho e Almir Saturnino de Brito Filho. Schüler era o diretor-presidente, e conta que naquela época não era comum os pais possuírem carro – ônibus era um transporte bastante raro, principalmente do Centro para Bom Abrigo. Com toda essa dificuldade de transporte, deu-se início a um processo de busca a um local de fácil acesso para sede escoteira. Ainda sediado no Bom Abrigo, os integrantes do grupo comentavam a possibilidade de alteração do nome dele, já que no bairro existia outra entidade com mesmo nome e era frequente a confusão ao ser dada alguma informação, mas a troca de nome não chegou a se concretizar.

Em 1958 o Departamento de Obras Públicas ofereceu ao Rotary Clube do Estreito uma área muito boa para sediar o grupo. O DOP ficava localizado onde hoje é o Ceisa Center. Nesta época, e por muito tempo, o Exército deu muito apoio ao grupo: fornecia medicamentos, mochilas, cursos de sobrevivência, etc.

Ainda em 1958, o Almirante Sodré visitou o Grupo Bom Abrigo e foi recebido com grande entusiasmo por todo grupo escoteiro e pelo diretor-presidente, Schüler. O Almirante Sodré era uma lenda para o Escotismo, e em algum momento ele sugeriu: “Vocês deveriam homenagear um dos grandes estadistas de Santa Catarina, o Hercílio”. A intenção da troca de nome já existente somada a euforia da visita de Sodré e sua sugestão para um novo nome fez com que no dia seguinte o grupo passasse a se chamar Grupo Escoteiro Hercílio Luz.

No início da década de 60, além da grande procura por parte dos jovens para serem escoteiros, Schüler passou a ter mais ocupações profissionais, sendo necessário então prepararem mais chefes. Na cidade existiam apenas os Grupos Escoteiros Marise Barros e Hercílio Luz. Schüler, que já era Insígnia da Madeira, juntamente com Paulo dos Reis e Rui Olimpio de Oliveira (os três primeiros Insígnias de Santa Catarina), preparou um curso para formação de novos chefes, que foi realizado em Joinville. Nesta época entrou no GEHL Sérgio Lino, o Cereja, que veio a ser um grande apoio e viria futuramente ser diretor-presidente e fundador e chefe da Tropa Sênior do Ar Napoleão em 1969.

Schüller conta que uma das atividades mais importantes realizadas pelo GEHL naquela época foi a arborização da Praça XV de Novembro. A praça sofria uma devastação e abandono muito grande. Por muitas vezes o GEHL acampou embaixo da Figueira. Devido a essa frequente presença, a prefeitura propôs que os escoteiros arborizassem novamente a praça. A proposta foi executada e, exceto pelas árvores centenárias, as demais, que atualmente estão na Praça XV, foram plantadas pelos escoteiros do GEHL. Outra atividade importante que o grupo escoteiro fazia era participar nas campanhas de vacinação, que na época não tinham o apoio que têm hoje. Os escoteiros ajudavam os paramédicos nesta tarefa. Também foi um fato marcante desta época um acampamento realizado na comunidade indígena de Ibirama, Xokleng, que significa pedra no rio. Os índios gostaram muito do fogo de conselho e das canções escoteiras.

Os dois locais em que o grupo mais acampava era no Campeche e na Trindade, na “Chácara das Freiras”. No final da década e até a década seguinte acampavam com grande frequência no Touring Clube de Biguaçu.

O Cereja se lembra dessa época da saudável vida ao ar livre, das inúmeras jornadas realizadas até o local do acampamento – já que os pontos finais da maior parte das linhas ficavam sempre muito longe do local de destino – , e lembra também de divertidas histórias de acampamentos.

O final da década de 60 é marcado pela perda do amigo Napoleão e pela mudança do nome da então Tropa Sênior do Ar Tibiriçá para Tropa Sênior do Ar Napoleão – uma homenagem ao amigo que faleceu naquele mesmo ano. Embora a tropa sênior fosse da modalidade do ar, a tropa escoteira, assim como o Grupo Hercílio Luz, continuaram a ser da modalidade básica por mais dois anos. Nesta época eram membros do grupo Tadeu Danielwicz e Marcio da Veiga, que também ajudaram a resgatar parte desta história. Mário Livramento, Marcelo Farias Brognoli, Roberto Barreiros, Giovanni Gerber e Ênio, autor do grito da Tropa Sênior Napoleão, também foram importantes.

Quem ajudou a resgatar fatos da década de 70 foi Hermes Queiroz, que entrou no grupo como escoteiro em 1972. Hermes conta que neste ano, ou no ano anterior, a tropa escoteira tinha sido reaberta como tropa escoteira do ar e a data da promessa dos primeiros escoteiros foi 24 de junho deste mesmo ano. Tanto a tropa como o grupo passaram a ser do ar. Ele comenta que na época havia duas patrulhas: Águia e Falcão. A tropa era chefiada por Marcos Pinto da Luz. Os assistentes eram os seniores Marcelo Brognoli, Mário Livramento, Stela, Eron, Renato Parrera, entre outros. O diretor-presidente era Balsini. Eram também desta época Paulo Rosa, Jéferson Telles. Marcelo Brognoli e Renato Parreira foram os autores do hino do Hercílio Luz.

Em 1973 mais uma patrulha é formada: a Atobá. Neste ano, o grupo perde sua sede no DOP e passa a se reunir em uma casa localizada na Avenida Mauro Ramos, em frente ao antigo Tiro Alemão. Hoje, no local da casa, está a sede do Badesc. O diretor-presidente era o seu Brasil. É desta época também o saudoso amigo Márcio Rizzo. Mais algumas dezenas de nomes que ingressaram no grupo neste ano e nos anos seguintes são lembrados por Hermes.

Em 1974 o grupo volta a ter uma alcateia, cuja akelá era Kátia Leite. O nome da alcateia era Misha Wa Ke. É desta época o lobinho Ig Queiroz, que no futuro veio a ser membro da chefia da alcateia.

Em 1975 o grupo fica sem sede. Num primeiro momento o material ficou distribuído entre os chefes e o grupo se reunia em locais públicos. Houve um tempo em que os encontros ocorriam no abrigo de menores e na Ponta do Coral – o ponto de encontro era embaixo de um Flamboyant. O Hercílio Luz passa a ter uma sede quando foi iniciado um trabalho de recuperação de uma casa abandonada que ficava localizada onde passa a Via Expressa hoje.

Em 1976 o grupo volta a ter uma sede – localizada na Travessa Ratclif. Mesmo que o grupo já tivesse com uma sede, não havia espaço para a alcatéia, que se reuniu por um bom tempo no Arcebispado – onde, pela primeira vez, o grupo conheceu o irmão Jorge e Rui Veiga, que foram nos pedir informações sobre como montar um grupo escoteiro.

Raquel Queiroz, que entra para alcateia em 1979, conta que estava deixando a chefia neste ano para Thais Lisboa, irmã do Marcelo Lisboa. A akelá da alcateia era a Leninha; o baloo, a Raquel. Avany e Marcelo Lisboa também eram da alcateia. Participou neste ano da alcateia a Rossana, que era do Grupo Leões de Blumenau. Isso possibilitou um acantonamento da alcateia Mi Sha Wake na sede do Leões, que recebeu muito bem o GEAHL. Em 1979, o diretor-presidente era Hermes Queiroz. Estavam na chefia Guilherme Pelluso, Cláudio Amante. Alexandre Gaúcho foi lobinho nesta época com Roberto Coutinho, que recentemente foi diretor-presidente do GEAHL.

Na década de 70 houve muitos bons momentos vividos com os Grupos Escoteiros Mariz e Barros, Baden Powell, Esperança (de Barreiros) e com a meninada do Distrito Bandeirante Florianópolis. Exemplos disso são os grandes acampamentos modelo na Baía Sul, dos quais participavam todos os grupos montando um acampamento de dar gosto de ver; os acampamentos na base aérea na semana dos portões abertos; os bazares de Natal em plena Praça XV e as épocas em que passávamos três meses no Rio Vermelho, no verão, acampados, num rodízio de chefias e escoteiros, com a coordenação firme da dona Yolanda, cuidando do camping.

O final da década de 70 é marcado pelo ressurgimento do ramo pioneiro, o que proporcionou o início dos anos 80 com uma farta chefia.

Nas memórias do GEAHL, escritas por Raquel, há uma passagem que retrata muito bem este fato: “Quando fomos para o Colégio Catarinense, nos reuníamos lá atrás do colégio num ‘bosque’. Nessa época chegamos a ter 12 chefes para uma alcateia de 24 lobinhos. Quase chegou a faltar personagem do Livro da Jângal. Era uma época em que a chefia era prá lá de unida, e para estar mais junto ainda todos se agruparam em volta da alcateia. Quando fomos para o IBDF, no Córrego Grande, abrimos uma segunda alcateia, já  que tinha chefia de sobra. Lembro da Janice como akelá, e eu, como baloo. A Selmira entrou no grupo como membro dessa nova alcateia. Nesta época também se reunia por lá a recém formada tropa escoteira do mar, comandada pelo Marcelo Lisboa, que veio posteriormente a dar origem ao Grupo I Jurerê Mirim”.

Em 1985 o grupo se mudou para a atual sede, localizada na Rua Presidente Coutinho, onde surge a alcateia feminina – havia então três alcateias. Nesta época o GEAHL teve o seu maior efetivo de membros juvenis e chefes. Fortes laços de amizade surgiram naquela época – algumas dessas amizades feitas são exemplos de amigos inseparáveis até os dias de hoje, como o caso do Geraldo, Ig, Célio, Marcio, Alexandre, Bez e Walter, que sempre estão juntos. Dessa época também é o Rubens Silveira, que até hoje está no grupo. Outros nomes desse período: Rubens Queiroz, Cláudio Soares, Luciano Caldeira, Alexandry e tantos outros grandes e bons amigos.

Nos anos 80 ingressaram no GEAHL chefes como Fátima, José Luiz, Karla, Joice, João Henrique, Ângela, Antônio Carlos, Heron, Marlene, Angélica, Bento, Paulinho. E dos membros juvenis é possível citar Everaldo, Anthony, Michel e tantos outros mais, que ingressaram antes ou ao longo dos anos que se seguiram – seus nomes não estão aqui escritos, mas não é por isso que perdem seu valor, pois bem sabem que se não fazem parte deste breve histórico, fazem parte desta longa história.

Todos que trilharam esta jornada de cinquenta anos – seja como membro do grupo, seja como um amigo que caminhou com o GEAHL e que com o grupo vibrou em muitos momentos – comemoram e desejam que quem aqui esteve, está ou estará, possa orgulhosamente dizer: GEAHL, faço parte desta história.

Autora: Yara Queiroz Gonçalves.